MEU BAIRRO...MORO AQUI
Aflitos
O que pode ser encontrado quando ligamos nossas antenas e abrimos nossa percepção para o incrível e complexo cotidiano de nossa cidade é muito rico. Cada uma das pessoas, suas ações, sentimentos, deslocamentos e modos de viver o Recife fazem parte de uma trama tão sutil quanto determinante na vida da metrópole. Conhecer essa vida é, também, participar dela de forma mais consciente e produtiva.
O bairro que iremos conhecer nesta edição da série Meu Bairro...Moro Aqui está localizado em uma área nobre da cidade e detém bons indicadores de renda. Os seus moradores dispõem de uma das melhores estruturas urbanas do Recife, com todas as vias pavimentadas e comércio desenvolvido. Quem nos guia nesse passeio pelo bairro onde mora é a grafiteira Marcela D’Angelo. Ela, que tem 19 anos, nasceu nos Aflitos e vive aqui até hoje. Envolvida com o grafite há três anos, Marcela faz parte do coletivo Napaz crew e também ministra oficinas ensinando a técnica.
Marcela afirma que uma das grandes vantagens de se morar nos Aflitos é estar perto de tudo: “Dá pra ir até o centro de bicicleta”, avisa. Começamos nossa exploração pela Rua da Angustura, onde mora nossa guia. Localizada exatamente atrás do Clube Náutico Capibaribe, a rua fica cheia de gente em dias de jogo, a ponto de precisar ser interditada. Marcela avisa que vários comerciantes montam aqui suas barracas para vender comida e bebidas.
Logo encontramos uma pequena praça, que Marcela diz ser conhecida como “Pracinha da 48”, em referência à rua em que fica. Verdadeiro ponto de descanso bem arborizado e com um parquinho infantil, a pracinha oferece bancos e sombras generosas. Espaços de convivência públicos como esse não são numerosos nos Aflitos. Como em outros bairros de famílias com alto poder aquisitivo, “as pessoas ficam muito trancadas. Não tem aquela coisa de ficar em frente de casa como nas periferias”, nos diz Marcela enquanto caminhamos.
A maior parte dos moradores dos Aflitos reside em apartamentos, e muito da convivência se dá dentro dos condomínios. Mas ainda existem casas no bairro. Nossa guia aponta para os detalhes das fachadas desses imóveis, típicos de casas antigas e, lembrando de amigos e conhecidos que venderam suas casas para construtoras, lamenta-se: “daqui a pouco não restará mais nenhuma casa”. A metrópole impõe seu crescimento.
Durante nossa caminhada, encontramos várias clínicas médicas de diferentes especialidades. Passamos pela Rua Manuel de Carvalho e alcançamos a Rua Carneiro Vilela. Logo salta aos nossos olhos um belo templo, a Catedral da Arquidiocese do Brasil da Igreja Episcopal Carismática. Falamos com Fred Bastos, secretário da Diocese, que nos mostra o interior da igreja, onde encontramos um raro instrumento musical: um órgão de tubos.
Primeiro instrumento de teclas criado pelo ser humano – muito antes do piano ou do cravo – é extremamente complexo em sua construção e foi durante o século XX sendo substituído pelo seu congênere elétrico e, depois, eletrônico. Fred nos conta que conhece apenas uma pessoa que sabe tocar o instrumento. Ele também avisa que os cultos, que acontecem todos os dias, são transmitidos ao vivo pela internet.
Chegamos à Av. Santos Dumont. “Eu morei aqui quando era criança”, nos avisa Marcela, enquanto caminhamos. A avenida concentra muitos pontos e galerias comerciais. Nossa guia nos leva ao Bar e Restaurante Santos Dumont, aberto desde 1969. Falamos com Vairdes Moraes Alves, a Dona Val, proprietária. Ela conta que, no início, seu comércio era uma mercearia, mas com a chegada de grandes redes de supermercados a clientela foi diminuindo, o que a fez mudar o foco. Ela não se arrepende, e diz que dá até mais retorno financeiro.
Com tanto tempo de vivência nos Aflitos, Dona Val conheceu o bairro antes do desenvolvimento imobiliário que elevou a altura das construções consideravelmente. “Com a chegada dos edifícios, o calor aqui aumentou”, revela a comerciante. De dia o foco são as refeições, mas de noite o espaço é um bar. Antônio de Pádua, genro da dona que também trabalha aqui, comenta que a freqüência noturna do Santos Dumont é formada majoritariamente por jovens, como a grafiteira Marcela D’angelo.
Alcançamos a Av. Rosa e Silva, um dos principais corredores viários do Recife. Aqui encontramos duas importantes construções: o The British Country Club e o Clube Náutico Capibaribe. Fundado em 1920, o Country foi, assim como o templo da Igreja Episcopal, construído por ingleses que, no início do século passado, formavam uma das mais influentes colônias de estrangeiros em Pernambuco. Trazidos por empresas de seu país que, na época, detinham serviços diversos como transporte e luz elétrica, os ingleses se ambientaram e trouxeram novos hábitos e novos esportes, incluindo o futebol.
O Clube Náutico Capibaribe foi fundado oficialmente em 1901, mas suas atividades têm início quatro anos antes, com competições de remo realizadas na cidade por um grupo de aficionados. Dois grupos se uniram e resolveram criar um clube que oferecesse estrutura e visibilidade para o esporte. O esporte principal do clube hoje é o futebol, que ainda não era uma paixão nacional quando da sua fundação, tanto que só começou a ser praticado pelo Náutico, de forma ainda amadora, em 1909.
Em 1939 o clube inaugurou seu estádio, o Eládio de Barros Carvalho, chamado por todos de “Estádio dos Aflitos”, por estar localizado no coração do bairro. A sede do clube dispõe de piscina olímpica, quadras e salão de jogos, além de uma loja temática com artigos ligados ao clube. A presença do clube – maior construção do bairro, ocupando quase metade de seu território – interfere diretamente na vida do bairro, principalmente em dias de jogo, e faz também parte da identidade do Aflitos.
De olhos abertos e sentidos aguçados, a Agenda Cultural do Recife continua sua exploração por cada um dos bairros da cidade, em busca daquilo que caracteriza não apenas seus espaços e limites geográficos, mas principalmente as pessoas, responsáveis pela construção constante da identidade do Recife. Seja você também, leitor, um morador ciente do tesouro que habita em cada recanto da nossa cidade.
01 a 28/02/2011
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