segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Entrevista

GERALDO MAIA

Fotos: Erika Fraga

Geraldo Maia, um dos intérpretes mais aplaudido no Recife, com uma carreira frutífera que já rendeu, em apenas 11 anos, sete discos, além de inúmeros shows, participações em importantes projetos, se prepara para lançar o disco Ladrão de Purezas, um tributo a Manezinho Araújo, um dos geniais músicos pernambucanos.
Nessa homenagem, mais do que justa, Geraldo Maia nos faz lembrar da importância de Manezinho Araújo, um dos personagens mais populares e influentes do Brasil, entre os anos 30 e 50, da década passada.
Para relembrar que em 2010 foi o centenário de seu nascimento, a repórter Érika Fraga e o editor Manoel Constantino, da Agenda Cultural do Recife, tiveram um longo papo com Geraldo Maia, resultando numa entrevista viva, como é a musicalidade de Manezinho Araújo, agora devidamente homenageado.

Você passou nove anos afastado da cena pernambucana, durante esse período você residiu em Portugal e fez vários shows por toda a Europa. Que cenário musical você encontrou lá fora?
Lá em Portugal foi ótimo, nos quatro primeiros anos eu peguei uma fase de muito esplendor da música Brasileira. Depois houve um declínio e certo descrédito, pois havia uma avalanche de “músicos” brasileiros morando na Europa, sobretudo em Portugal, mas muitos deles não eram músicos profissionais, e essas pessoas fizeram muitas barbeiragens nas noites de Lisboa. Então isso causou um descrédito muito grande fazendo com que a música brasileira ficasse muito ruim em todos os quadrantes. A música brasileira passou por um momento de turbulência e depois as coisas começaram a melhorar e voltar com outro formato e outra seleção de músicos.

Porque você quis voltar?
Essencialmente porque eu queria fazer a música que faço aqui, e que eu não conseguia fazer lá, pois vivia em uma realidade que exigia de mim uma atitude unilateral diante da música brasileira. As minhas músicas não poderiam trazer elementos da minha formação íntima, elas tinham que ser extremamente comerciais, agradáveis aos ouvidos, dançantes, fáceis de digerir, além de ter uma conexão com as coisas que estava fazendo sucesso no Brasil.
A musicalidade brasileira era muito forte, pois lá tinha a SIC, que era uma TV Portuguesa vinculada com a Rede Globo, onde passa todas as novelas e trilhas sonoras da Globo. Então você tinha que esta por dentro das trilhas das novelas, caso contrário você dançava.

Passado todo esse tempo fora, como foi à volta para o Brasil, o que você encontrou ao voltar?
A minha vida tem dois viés, dois períodos, um antes e o outro depois de Portugal. Antes de Portugal eu vivia em uma realidade diferente do que eu encontrei quando voltei, pois ser músico aqui era quase como uma rebeldia contra o estado, tal a dificuldade de se produzir e ser acolhido. Eu saí em 1990, na era Collor com todas as catástrofes que vieram a partir da posse dele, e voltei em 1999, já depois da morte de Chico Science, ou seja, voltei depois de toda a erupção vulcânica que o Manguebeat provocou em todas as esferas da cultura pernambucana de um modo geral. Houve uma mudança tão grande aqui, que quando eu voltei fiquei cambaleante.

Depois da volta para o Brasil você chegou a lançar sete CDs. Como funciona esse processo de pesquisa para lançar os CDs?
É algo que vai muito da intuição. Tudo o que absorvi na minha formação, como o Tropicalismo, os Baianos, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Quinteto Violado, João do Vale começaram a se reafirmar surgindo um latente desejo de expor a minha ligação com as coisas daqui. Então tudo isso foi se desenvolver a partir desse retorno de uma forma mais madura e mais focada.

Quem acompanhou a sua carreira desde o início notou uma grande mudança na sua forma de fazer música depois do CD Astrolábio, lançado em 2001. O que esse álbum representou em sua carreira?
O Astrolábio é um disco bastante conceitual, talvez dentre os meus CDs ele seja o mais conceitual. Porque ele retratava a ansiedade que acumulei durante quase 15 anos, desde quando eu terminei a parceria com Henrique Macedo em 1987, época em que fizemos o Cena de Ciúme, que foi um LP muito importante, até a volta de Portugal. Na volta de Portugal lancei o Verd’àgua , um disco totalmente atemporal que tinha uma grande inquietude na busca pela estética. Foi uma obra mais maturada em Portugal do que aqui, ele já veio quase pronto. Então o Astrolábio foi uma ruptura com tudo que eu vinha fazendo antes e uma tentativa de dizer que eu cheguei, cheguei ao Recife, uma cidade que mudou completamente nesses nove anos. O disco foi pensado para dizer também que durante esses anos que passei fora, eu estava não só vivo como presente e queria me reafirmar nesse novo contexto. Então foi um disco que fez essa abertura para um novo caminho. E em seguida vieram os outros discos: Samba do Mar Quebrado, Samba de São João, Peso leve, Lundum e Ladrão de Purezas que é uma homenagem prestada a Manezinho Araújo e será lançado em Março.

Quando a gente escuta o Samba de São João, notamos claramente que você está focado, podemos ver não só o intérprete, mas também o compositor. Mas ai você para os seus trabalhos autorais para chegar em Manezinho Araújo. Porque você escolheu Manezinho para prestar uma homenagem?
O Manezinho existia antes de eu ir para Portugal. Quando voltei começou a ir brotando devagar a vontade de fazer algo sobre ele. Já no Samba do Mar Quebrado começou a se revelar um pouco dessa minha busca pelos compositores de Pernambuco. Sou um verdadeiro privilegiado por ter chegado em Manezinho na hora que eu cheguei e como eu cheguei. Ele é uma pessoa tão importante e tão magnífica quanto Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e os outros dois que o Brasil inteiro homenageou o ano todo que são: Noel Rosa e Adoniran Barbosa, duas pessoas maravilhosas e merecidamente homenageados pelo seu centenário. Mas uma coisa que passou a “despercebido” é que 2010 também foi o ano do centenário de Manezinho, e ele não foi homenageado, mesmo estando na mesma categoria de genialidade dos outros dois. Espero que esse trabalho nos ajude a fazer com que as pessoas vejam Manezinho como um grande nome da música brasileira que está inadvertidamente esquecido e negligenciado, e isso é um paradoxo, pois nós pernambucanos somos muito vaidosos com a nossa cultura que é múltipla, extremamente rica, fértil e profundamente complexa. Por isso acredito que todos nós temos uma dívida com o ele, e o Ladrão de Pureza vem nos redimir um pouco e espero que nós possamos encontrar outras formas de redenção.

Tem uma crítica de José Telles que fala “é lamentável que se tenha esquecido Manezinho Araújo tão rapidamente, e muito mais lamentável o esquecimento que lhe foi dado em sua terra natal”. Ao ver a grandiosidade do seu resgate, emocionalmente como você se coloca vendo um trabalho desse porte?
Eu acho que a minha grande paixão, o meu grande fascínio por Manezinho é que ele tem uma coisa misteriosa, eu não sei explicar por palavras, mas ele é múltiplo e a sua simplicidade me fascina. Ao mesmo tenho que ele tinha uma simplicidade você encontrava um refinamento dentro dessa simplicidade. E o que mais me cativa em sua obra é a melodia, as letras dele são fascinantes para cantar e interpretar principalmente para mim que sou muito ligado à palavra, eu que sou essencialmente um intérprete apesar desse viés de compositor que surgiu nos anos 70 e 80. As suas melodias têm duas vertentes, hora Manezinho impõe um ar muito simples, hora ele é malicioso, astuto, cheio de joguinhos e segundas intenções e ao mesmo tempo são muito cativantes. Na realidade ele era o cara, pois onde ele se meteu ele teve sucesso, foi um grande compositor, um grande artista de rádio nos anos 30, 40 e 50, depois que ele deixou de cantar virou um dos grandes pintores primitivista, e em 1954 ele abriu o Cabeça Chata, que era um dos restaurantes mais badalados do Rio de Janeiro frequentado por presidentes, governadores, artistas, intelectuais.

Como você acha que a música de Manezinho na sua voz vai chegar aos ouvidos dessa nova geração digital?
Eu deixo essa resposta para eles. Mas sabe qual é a sugestão que eu faço para essa geração mais nova: que eles façam um disco baseado em Manezinho com a leitura deles, com a versão deles. Isso seria fantástico.

Você já fez parte do projeto Pixinguinha, como foi participar desse projeto e qual foram a importância que ele teve para a cena musical?
Era um projeto muito legal, pois levava os artistas locais para os circuitos nacionais. A essência do projeto era a itinerância que fazia com que os artistas viajassem pelo brasil. Eu já participei vários Pixinguinhas. Em 1983, participei na primeira edição como janela local. Em 1984, participei do Pixingão, nessa época eu estava no Rio de Janeiro e a minha participação se deu em conseqüência do primeiro Pixinguinha. E em 2008 fui contemplado junto com a cantora Isaar. Essa edição teve um novo formato e selecionava dois artistas de cada estado que recebiam um prêmio em dinheiro para produzir um CD e três shows.

O que você acha sobre as políticas de incentivos culturais, elas são suficientes e eficientes?
Suficientes não. Mas elas são necessárias, além de ser uma conquista que devemos louvar. Se você olhar existem vários estados que não tem leis de incentivos culturais. Eu acho que a cadeia produtiva é maior, mais complexa e mais dinâmica do que qualquer projeto pode abarcar. As leis são super benéficas, mas precisamos criar outras formas para garantir o mercado. E isso também tem que se garantir com a iniciativa privada e mais ainda com o produtor. Pois eu vejo que falta uma ousadia nos produtores locais, eles precisam acreditar mais no artista e no poder do artista.

01 a 28/02/2011

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